segunda-feira, 27 de maio de 2013


A fazenda que não era modelo III

 
Pranteneu nasceu Francisco Pranteneu Calixto num março chuvoso. Em tarde de mormaço, cinza e sem entusiasmo. A cabeça já era avantajada desde então e sinhá Cândida, a parteira, foi quem falou primeiro que seria gente importante, inteligente, só pelo fato da cabeçorra. Até que importante foi, já a inteligência ficou por conta de análises e bajulações.

As pernas finas, as camisas abotoadas ao gogó e a já dita voz fraca de sacristão afeminado já lhe emprestaram ar de pau mandado. Ar de bobo da corte iludido com os que estavam em sua volta, a bater-lhe nas costas.

Mesmo com os estudos e a retórica de líder dos sem o que liderar, era tido como insignificante pelos seus pares, que se resumiam em escritores de versinhos puros, líderes estudantis virgens, moças feias sem carinho e trabalhadores trapaceados. Mas foi calando aos poucos os que nunca o enxergaram como dono do poder. Foi buscá-lo com toda a energia e o conseguiu, se tornando fidalgo respeitado em Vila Serena e região, se portando como salvador da pátria para muitos ali, cansados da derrama imposta pelo barão Epitácio Amendoeira. Este, por sua vez, era populista dos mais gabaritados, aliado aos outros poderosos e responsável em sugar as tetas mais robustas da Fazenda das Acácias e, por conseguinte, iludir e tapear o povo de Vila Serena.

Mas eis que aquele menino ruim de bola, com jeitinho de chibungo e cara de bobo, conseguiu o que queria, com tanta persistência e sabendo jogar o jogo. Driblou os donos do poder local e, numa tacada certeira, contando com a ajuda inocente da baronesa Ilca Salastião, se apoderou das terras e das riquezas da Fazenda das Acácias. Começava ali a saga infeliz e tirana do menino sem estampa de barão, mas que se alçou no certame dos poderosos e sentiu de perto as aventuras e desventuras do poder. E como diria sinhá Cândida, aquela que anunciou na tarde de mormaço a chegada da cabeça avantajada e dona de inteligência vivaz, “dê o poder ao homem e irá conhecê-lo de verdade”.

A partir daí o povo de Vila Serena e da Fazenda das Acácias conheceu melhor o Coronel Pranteneu, que hoje é ex-barão, ex-rei, e até a chegada de Coronel Teobaldo, era ex-capeta.

 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

"Sol das Cinco" no Cerp
 
 
A convite do professor, mestre em Literatura e amigo Erivelton Braz, estive na manhã desta quinta-feira, 16, no Cerp (Centro Educacional Roberto Porto). Na ocasião, participei de um bate-papo com os alunos do 9º ano sobre literatura e, mais precisamente, sobre o livro “Sol das Cinco”, que será adotado na escola este ano. O mesmo aconteceu ano passado, quando a escola utilizou o livro “Crônicas de um repórter” nas aulas de Literatura.

Logo após nosso bate-papo literário tive o prazer de realizar um “lançamento” do livro na escola, para aqueles que ainda não o tinham.

Fica aqui meu agradecimento ao amigo Erivelton Braz, mestre sempre sensível a arte literária, à coordenação do Cerp, demais professores e aos alunos, que mais uma vez me proporcionaram uma bela manhã, com um debate literário de alto nível, onde, com certeza, mais aprendi que ensinei.

Grande abraço a todos e viva nossa literatura!

sexta-feira, 10 de maio de 2013


A fazenda que não era modelo II

 

Há quem sinta saudade de Coronel Pranteneu. Há quem ache isso exagero, impaciência, intolerância e certa perseguição medida. O fato é que muitos em Vila Serena estranham como as coisas mudam repentinamente na Fazenda das Acácias. Outro dia mesmo o ex-mandatário era o vilão-mor, espelho do diabo e malfeitor de onze a cada dez maldades por aquelas bandas. Hoje se cogita homenageá-lo como herói imaculado e vítima de línguas atrozes. O demônio agora se veste de Coronel Teobaldo.

Para Dondinha do bazar, pano de prato ao ombro e mão sempre molhada, asseada que só, o povo era a pior parte da história. Endeusava e demonizava como quem come uma banana prata. “O sujeito hoje é capeta. Ruim e burro que a peste. Amanhã é santo e pra anjo só falta asa”, dizia aos fregueses habituais. Uns mais molhados que os outros.  

Desde que Pranteneu fugiu para as bandas de Jupiara, para tomar conta de uma criação de cágados baianos, acolhido por outros de sua estirpe de velhacos, o povo agora crucifica Teobaldo. O novo patrão e dono das terras e riquezas da Acácias, com seus olhos arregalados e boca entreaberta de chefe obtuso, parece estar meio perdido com o poder que os barões lhe deram.

“Vá lá e cuide da Fazenda das Acácias. Precisamos dos benefícios daquela terra. Ela nos é valiosa. Cale os pensantes, rasgue as alforrias, minta para a Vila Serena e oprima os empregados da Casa Grande. Na senzala, chicote e rédea curta. Com o tempo, você ainda será aplaudido só pela ração que rasga dos sacos”, diziam os barões, com seus andares mancos e barrigas saltando das calças.

E é assim na Fazenda das Acácias. Os barões mandam e os coronéis compram as terras e a tocam à moda dos primeiros. Expulsaram Pranteneu e o pintaram de satanás, mesmo tendo ele aquele ar e fala de sacristão afeminado. Agora terão que cuidar para que empregados, escravos e ainda o povo da vila não faça o mesmo com Teobaldo, que, por feliz ou infeliz coincidência, também tem voz pequena.  

E mesmo apesar de tudo que se passou, há os que dizem sentir saudades do Coronel Pranteneu. O ex-capeta.