A ditadura sem farda
O mestre e
Nobel Saramago já duvidava da democracia em alguns de seus escritos e
entrevistas. Eu, que de mestria só carrego a do botequismo e estou anos luz do
Nobel literário, só tenho a concordar.
E além de
duvidar um pouco da dita democracia plena, chego até a recear se as temerosas
censura e ditadura morreram mesmo, junto com a truculência dos antigos
generais. É que começo a desconfiar (ou já desconfio há muito tempo, sei lá) se
estamos mesmo diante de uma democracia ampla e irrestrita, dados os exemplos de
uma mordaça velada e sob cortinas espessas que nos assola.
Veja nossa
cidade, por exemplo. Assusta o grande número de boas mentes pensantes que se
calam diante de tantos temas a debater e críticas negativas e positivas a se
fazer. Excetuando alguns casos de coragem, independência e lucidez, que
exemplifico usando os amigos Márcio Passos, Fernando Garcia, Marcelo Melo e
Delci Couto, e, justiça seja feita, alguns outros indignados mais esporádicos,
tem muita gente calada por medo e subserviência.
Dito isto,
sinto uma imposição ao silêncio que beira o ridículo, ás vezes. Haja vista que,
para mim, homem sem opinião é homem morto. O que parece vigorar é a ordem da
preservação de benesses e posições na esfera do poder (?) e da vaga garantida
na roda pseudo-burguesa da sociedade de festinhas que rendem fotos nas sociais.
E a verdade é que tem muita gente que não diz e opina porque tem medo de
represálias, sejam financeiras ou sociais. Isso é ou não ditadura? Ditadura sem
farda, cassetetes e tortura física, mas que representa perigo. Até o bar que se
freqüenta é alvo de vigília nos dias de hoje, muito diferente dos bons tempos
de antigos governantes.
Não se trata
de rancor, amargura ou ânsia em ser dono da verdade, da moral e dos bons
costumes quando fora do sistema (como em alguns casos). É apenas o relato de um
cidadão que duvida da democracia tão falada e propagada pelos populistas de
plantão. E quando falo em opinião, quero dizer opinião sobre tudo e qualquer
coisa, e não aquela restrita à administração pública. E repito: homem sem
opinião é homem morto.
Neste ensaio,
mestre Saramago, a cegueira vem acompanhada de uma temerosa, triste e melancólica
mudez.