segunda-feira, 25 de março de 2013


Para começar a semana, um texto que estará em meu próximo livro. Melhor dizendo, no livro do  meu amigo Wandão Madruga.

 

Deus ou Sartre em nuvens vermelhas

           

Era só o vizinho do 306 começar a xingar sua esposa e perguntar se Deus realmente existia, e se existia porque o abandonara em companhia daquela mulher, que o do 401 jogava Demônios da Garoa bem alto na vitrola e se punha a fritar pururucas. Parecia querer provar que Ele existia. Era sábado pela manhã.

A moça de olheiras do 512 subia as escadas com raiva, pisando forte e reclamando de Deus por ter quebrado o salto esquerdo e pela noite fraca. Perguntava, entre bufadas, se Ele realmente existia. O do 401 parecia adivinhar. Ligava a TV num jogão do maraca e abria logo duas. Era quinta à noite.

As contas do casal do 703 pareciam não querer fechar e a mulher, serena e quase resignada, entre lágrimas, pedia respostas a Deus, perguntando se Ele realmente existia e se podia ouvi-la. Nosso amigo do 401, sentado no vaso sanitário, fazia palavras cruzadas e lia Sartre. Era terça à tardinha.

A sofrida vizinha do 822 chorava baixinho na sacada, cansada de mais uma noitada do marido, perguntando às nuvens vermelhas se Deus era pra valer. Daí podia-se sentir no ar, vindo do 401, o cheiro bom de um café saindo na hora e o resmungar de uma vitrolinha tocando samba antigo. Era segunda pela manhã.

Não vou me fazer de santo e dizer que nunca duvidei de sua existência, ainda mais eu, que nos idos românticos e ásperos flertava com o partidão e só lia e ouvia Gabeira e Caetano. Mas realmente há mais motivos para acreditar do que para duvidar. Afinal, há muito fantástico em meio à dureza. Há muita beleza em meio ao caos.

É como sempre dizia meu vizinho do 401: “tava tudo lindo, nós é que bagunçamos tudo”. Ele estava certo, em sua mania incessante e boa de mostrar para todos que Deus existia. E ele próprio provou isso, na tarde de sexta que saiu voando pela janela do 401 em meio às nuvens vermelhas, espalhando Sartre, palavras cruzadas e pururucas frescas a todos lá embaixo.