quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Meus dois primeiros livros, Crônicas de um repórter (2010) e Sol das cinco (2012). O terceiro está pronto e em breve será lançado.

terça-feira, 30 de julho de 2013


A fazenda que não era modelo IV

 

Mas falemos da Acácias. Fazenda sempre considerada promissora, de gente trabalhadora e futuro certo para os entendidos da Vila Serena. Desde os pioneiros, sempre se falava de trabalho árduo, de força conjunta e povo compromissado com seu crescimento e beleza. Diziam que até os escravos eram decerto felizes, mesmo com a labuta de vida tão dura, já velha conhecida destes. Diziam as boas línguas que, apesar da dureza de um trabalho muito pesado sob chuva ou sol e do chão duro e frio para a noite, nunca se vira chicote ou corrente na Acácias.  

Dizem que de um córrego sem muita serventia, de uns engenhos velhos e ruídos e de alguns pés de um pomar mal formado, foram surgindo celeiro novo, casa grande e senzala bem construída pelos seus trabalhadores brancos e escravos. Já se viam plantações em terrenos bem aproveitados e a Acácias ia tomando rumo de fazenda imponente, de encher os olhos de esperança e o coração de orgulho de quem dali se sustentava. Tudo obra de seu primeiro Coronel e dono, um tal Alcebíades Alencar, que hoje, a exemplo de outras propriedades históricas, é figura estrábica no quadro na parede da grande sala de visitas, com moldura de imbúia bem tratada.

O tempo passou, outros grandes coronéis passaram por lá, por herança, compra ou batalha de sangue, e Acácias continua de pé. Produz pouco, não é nem sombra da abundância de outrora. Também não recebe muitas visitas, como acontecia num passado cada vez mais distante e saudoso, quando famílias eram fotografadas ou pintadas em tela em frente ao casarão, no jardim de flores bem vivas ou nos pomares ricos em variedades de frutas robustas.

Acácias já foi terra que cheirava futuro, sem se esquecer do passado e com os pés no melhor presente. Com gente amiga e confidente, sem rixas e duelos de sangue. Hoje se desvirtuou em terra de ninguém e passado, presente e futuro se emaranham em coisa só, pequena, esquecida, sugada pelos abutres que só querem a carne fácil. Acácias definha, como é dito por alguns entendidos nos secos e molhados da Vila Serena. Ainda é bela aos olhos de quem ali se criou e ganhou cara e vergonha. Mas morre nas mãos de quem só quer dela o sulco de ouro e peleja.

 

segunda-feira, 8 de julho de 2013


A loucura artística de Bispo

 

A arte, em sua essência, é realmente algo que nos move, nos toca, de forma imponderável. E isso independe de gênero, estilo, linguagem, expressão e abrangência. Falo isso após ler boa reportagem sobre uma figura que me interessa profundamente há quase 20 anos, o artista plástico sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909-1989).

Estabelecido como louco (defino assim por não ter aval e coragem de assinar embaixo sua loucura, ou por não ter a exata noção do que seja loucura, até porque, louco, para mim, é quem vota em Renan Calheiros, por exemplo) e confinado no manicômio carioca denominado "Colônia Juliano Moreira" por cinqüenta anos, Arthur Bispo do Rosário criou incansavelmente obras de extrema sensibilidade artística. Peças de um artesanato com toques regionais e tintas de um humanismo pouco vistos em galerias com assinaturas consagradas mundo afora. A fuga de sua solidão e dita esquizofrenia estava na arte criativa.

Conheci parte de sua obra em 1994, quando adquiri o disco Rio Severino, da banda Os Paralamas do Sucesso. Capa, contracapa e encartes do vinil eram decorados com reproduções da obra de Arthur. Por sinal, na minha opinião, além de ser o melhor disco da banda (da qual sou fã), é o melhor trabalho gráfico da discografia do trio. Um show que me chamou profundamente a atenção para o trabalho desse artista.

Quando nos deparamos com a obra de Arthur, uma mistura de emoção e de questionamento nos assola. É que fica sempre a interrogação sobre uma questão que se torna clássica diante de sua obra: como pode alguém diagnosticado como louco, internado num manicômio (“cemitério dos vivos”, como disse Lima Barreto), totalmente excluído da sociedade e atirado ao limbo de um mundo à margem, produzir tanto e tão bem? Para mim, é a magia da arte. A magia de sua essência que cito no início do texto. O que nos toca e move. Isso, claro, retido à minha condição de não ser crítico e entendido em artes plásticas. Até porque não discuto aqui as técnicas, linguagens e demais blábláblás acadêmicos que possam nortear as obras de Rosário. Talvez venha daí uma questão até mais profunda, a da dúvida em o que realmente seja loucura ou a de que a arte não seja expressão exclusiva dos “sãos”.

Viva Arthur Bispo do Rosário e sua arte louca! Ou sua loucura artística!  

quinta-feira, 20 de junho de 2013


O grito das ruas

 

Desde os tempos do forte apache e dos quadrinhos da Marvel ouço falar que “a voz do povo é a voz de Deus”. O problema é que em nosso Brasil tentam calar Deus desde a queda da primeira índia desvirginada pela tropa de Cabral. Historicamente somos submetidos a um sistema político-partidário carregado de malandragem, má-fé, bandidagem de colarinho branco e muito conluio para alimentar o câncer da corrupção, algo que, infelizmente, é parte do DNA do poder público brasileiro.

O que vejo, com minha miopia que foge às teses acadêmicas dos grandes cronistas da realidade, é que as atuais manifestações Brasil afora são o mais puro retrato do “basta, cansamos de ser enganados” que o povo quer gritar pelas ruas. E isso é de uma importância histórica muito maior que os debates poéticos em salas de ar condicionado dos pensadores de plantão e dos nossos mandatários.

Sim, os tempos mudaram. Estamos na era da mobilização virtual, que tem em seu poder massificante uma abrangência inimaginável nos tempos da ditadura, que teve seus manifestos heróicos e históricos. Temos é que torcer para que essa ferramenta seja bem utilizada para o bem dos movimentos. E torcer também para que as manifestações não percam seu foco de atuação e se façam valer, não servindo apenas para aumentar os índices negativos das, infelizmente, inevitáveis depredações, prejuízos pessoais e truculência desmedida.

Sinceramente, falando com a minha bunda comodista colada na cadeira, doido para comer feijoada na hora do almoço e ouvir Elomar, sem qualquer resquício de participação nos movimentos pelo simples fato de ser preguiçoso e inoperante, tenho orgulho desses jovens que vão para as ruas e se mostram indignados contra a bandalheira chamada “Brasil”. Os invejo. Os admiro. Torço por eles. Lógico, desde que a violência não seja a tônica das ações e que os vândalos sejam excluídos.

Parabéns, Brasil! Vamos tirar as mordaças de Deus e ecoar pelos quatro cantos a voz do povo. Estamos dentro de um capítulo importante da história.     

 

 

quarta-feira, 12 de junho de 2013


Zumbis

 

E lá se vão os zumbis dirigindo seus carros novos. E suas consciências velhas e obesas. E seus carrinhos cheios de compras e suas vidas cheias de regras.

E lá se vão os mortos-vivos dirigindo suas realidades blindadas. E suas costas cheias de tapinhas. E suas conveniências amordaçadas. E seus canais de TV. E suas sobremesas calóricas. E suas vidas pré-fabricadas, arruinadas pela mudez calculada.

E lá se vão os servos do poder com suas opiniões plastificadas e vencidas.

Escravos da ordem estabelecida. Em suas caminhadas sociais às suas academias inúteis. Em seus exercícios enquadrantes de fim de tarde. Com suas nádegas flácidas, abdomens enfárticos e cérebros doutrinados.

E lá se vão os homens sem voz. Crucificados pela chefia dominante. Parceiros do medo e da solidão. Com suas cervejas importadas e limitadas. Com suas amizades movidas a interesse e tira-gosto industrializado. Com seus medos disfarçados de cautela, sua intolerância disfarçada de moral, sua arrogância disfarçada de intelecto e seus falsos pudores disfarçados de respeito.

E lá se vão os zumbis, vagando sob marcas famosas. Transando de olho no relógio. Comemorando ereções e sua heterossexualidade. Escondendo desejos profanos e aliviando sua consciência mamute no dízimo de sexta-feira. Sujando as mãos de um sacerdote político com seus lábios impuros.

E lá se vão os zumbis, fugindo de suas covas. Em vão. Lutando desesperadamente para chegar à frente. Que frente?

Lá se vão os parceiros da ordem. Vendidos e mortos, assim como os zumbis cheios de regras.

E seus carrinhos cheios de compra. E medo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013


A fazenda que não era modelo III

 
Pranteneu nasceu Francisco Pranteneu Calixto num março chuvoso. Em tarde de mormaço, cinza e sem entusiasmo. A cabeça já era avantajada desde então e sinhá Cândida, a parteira, foi quem falou primeiro que seria gente importante, inteligente, só pelo fato da cabeçorra. Até que importante foi, já a inteligência ficou por conta de análises e bajulações.

As pernas finas, as camisas abotoadas ao gogó e a já dita voz fraca de sacristão afeminado já lhe emprestaram ar de pau mandado. Ar de bobo da corte iludido com os que estavam em sua volta, a bater-lhe nas costas.

Mesmo com os estudos e a retórica de líder dos sem o que liderar, era tido como insignificante pelos seus pares, que se resumiam em escritores de versinhos puros, líderes estudantis virgens, moças feias sem carinho e trabalhadores trapaceados. Mas foi calando aos poucos os que nunca o enxergaram como dono do poder. Foi buscá-lo com toda a energia e o conseguiu, se tornando fidalgo respeitado em Vila Serena e região, se portando como salvador da pátria para muitos ali, cansados da derrama imposta pelo barão Epitácio Amendoeira. Este, por sua vez, era populista dos mais gabaritados, aliado aos outros poderosos e responsável em sugar as tetas mais robustas da Fazenda das Acácias e, por conseguinte, iludir e tapear o povo de Vila Serena.

Mas eis que aquele menino ruim de bola, com jeitinho de chibungo e cara de bobo, conseguiu o que queria, com tanta persistência e sabendo jogar o jogo. Driblou os donos do poder local e, numa tacada certeira, contando com a ajuda inocente da baronesa Ilca Salastião, se apoderou das terras e das riquezas da Fazenda das Acácias. Começava ali a saga infeliz e tirana do menino sem estampa de barão, mas que se alçou no certame dos poderosos e sentiu de perto as aventuras e desventuras do poder. E como diria sinhá Cândida, aquela que anunciou na tarde de mormaço a chegada da cabeça avantajada e dona de inteligência vivaz, “dê o poder ao homem e irá conhecê-lo de verdade”.

A partir daí o povo de Vila Serena e da Fazenda das Acácias conheceu melhor o Coronel Pranteneu, que hoje é ex-barão, ex-rei, e até a chegada de Coronel Teobaldo, era ex-capeta.

 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

"Sol das Cinco" no Cerp
 
 
A convite do professor, mestre em Literatura e amigo Erivelton Braz, estive na manhã desta quinta-feira, 16, no Cerp (Centro Educacional Roberto Porto). Na ocasião, participei de um bate-papo com os alunos do 9º ano sobre literatura e, mais precisamente, sobre o livro “Sol das Cinco”, que será adotado na escola este ano. O mesmo aconteceu ano passado, quando a escola utilizou o livro “Crônicas de um repórter” nas aulas de Literatura.

Logo após nosso bate-papo literário tive o prazer de realizar um “lançamento” do livro na escola, para aqueles que ainda não o tinham.

Fica aqui meu agradecimento ao amigo Erivelton Braz, mestre sempre sensível a arte literária, à coordenação do Cerp, demais professores e aos alunos, que mais uma vez me proporcionaram uma bela manhã, com um debate literário de alto nível, onde, com certeza, mais aprendi que ensinei.

Grande abraço a todos e viva nossa literatura!

sexta-feira, 10 de maio de 2013


A fazenda que não era modelo II

 

Há quem sinta saudade de Coronel Pranteneu. Há quem ache isso exagero, impaciência, intolerância e certa perseguição medida. O fato é que muitos em Vila Serena estranham como as coisas mudam repentinamente na Fazenda das Acácias. Outro dia mesmo o ex-mandatário era o vilão-mor, espelho do diabo e malfeitor de onze a cada dez maldades por aquelas bandas. Hoje se cogita homenageá-lo como herói imaculado e vítima de línguas atrozes. O demônio agora se veste de Coronel Teobaldo.

Para Dondinha do bazar, pano de prato ao ombro e mão sempre molhada, asseada que só, o povo era a pior parte da história. Endeusava e demonizava como quem come uma banana prata. “O sujeito hoje é capeta. Ruim e burro que a peste. Amanhã é santo e pra anjo só falta asa”, dizia aos fregueses habituais. Uns mais molhados que os outros.  

Desde que Pranteneu fugiu para as bandas de Jupiara, para tomar conta de uma criação de cágados baianos, acolhido por outros de sua estirpe de velhacos, o povo agora crucifica Teobaldo. O novo patrão e dono das terras e riquezas da Acácias, com seus olhos arregalados e boca entreaberta de chefe obtuso, parece estar meio perdido com o poder que os barões lhe deram.

“Vá lá e cuide da Fazenda das Acácias. Precisamos dos benefícios daquela terra. Ela nos é valiosa. Cale os pensantes, rasgue as alforrias, minta para a Vila Serena e oprima os empregados da Casa Grande. Na senzala, chicote e rédea curta. Com o tempo, você ainda será aplaudido só pela ração que rasga dos sacos”, diziam os barões, com seus andares mancos e barrigas saltando das calças.

E é assim na Fazenda das Acácias. Os barões mandam e os coronéis compram as terras e a tocam à moda dos primeiros. Expulsaram Pranteneu e o pintaram de satanás, mesmo tendo ele aquele ar e fala de sacristão afeminado. Agora terão que cuidar para que empregados, escravos e ainda o povo da vila não faça o mesmo com Teobaldo, que, por feliz ou infeliz coincidência, também tem voz pequena.  

E mesmo apesar de tudo que se passou, há os que dizem sentir saudades do Coronel Pranteneu. O ex-capeta.

 

segunda-feira, 29 de abril de 2013


Sobre bebidas e bares

 

Nunca bebi para me sentir mais macho, viril, poderoso, engraçado ou conquistador. Sempre bebi por prazer. E no pacote dos prazeres trazidos pela bebida está a certeza da verdade em mim.

A verdade latente nos bate a cara no momento em que nos embriagamos. As mais intensas alegrias e as mais sofríveis dores nos acometem de forma limpa e verdadeira na mesa do bar ou de casa, na companhia das garrafas. Quem bebe para aparecer socialmente ou para simplesmente ficar bêbado deveria ser preso ou proibido de beber.

Não procuro na bebida nada que não seja me satisfazer. Não busco dor, melancolia, mágoa ou alegria fabricada. Procuro só o prazer de estar degustando algo que gosto em lugar que aprecio. E esse detalhe é importante, pois beber em lugar que não te aconchegue é o pior dos mundos. A bebida precisa do lugar e há lugares que precisam de bebida.

E falando em lugar, muitas pessoas se vangloriam e se rotulam como entendedores do que seja um bom bar. E, na maioria das vezes, são aqueles que não entendem nada de bar e só freqüentam lugares sem aconchego e repleto de maus bebedores. Cidadãos barulhentos cheios de risos bobos e fáceis que saem do trabalho ou da escola, tomam dois copos (ou taças, o que é pior) e acham que bebem e são freqüentadores de bares. Existe até aquele concurso patético que chamam de “Comida de Boteco”, famoso e prestigiado na capital, mas mentiroso em sua essência, pois os seus concorrentes nunca foram e nunca serão botecos. São bares requintados ou emergentes que abarcam a jovem burguesia belo-horizontina metida à besta e os turistas deslumbrados com suas máquinas digitais frenéticas e celulares.

Boteco tem que ter alma de boteco. È isso, boteco tem alma. Tem espírito. Tem atmosfera. Como os da Lagoinha, Floresta e Santa Tereza, em se tratando de BH, como citei há pouco. Bar tem que ter aura. Botequeiro que se preza não senta em mesa de madeira envernizada e come camarão ao molho de alcaparras, iluminado por duzentas lâmpadas de mil wolts. E antes de tudo, boteco tem que ser intimista. Espalhafatoso, barulhento e agregador é parque de diversões e shopping center.

Diga onde e com quem bebes e te direi quem és. Deu sede.

sexta-feira, 19 de abril de 2013


A fazenda que não era modelo
Na Fazenda das Acácias está tudo revirado. Parece fruto da cachaça ruim que andam dando para o Coronel Teobaldo, que acabou de arrematar as terras do falecido Coronel Pranteneu. Este, por sua vez, entrou de gaiato no certame dos poderosos, foi excomungado até por pai de santo e virou peça de museu lá pelas bandas de Jupiara.
Mas voltando às Acácias, a coisa ta danada, como diria Vô Sabino. A fazenda está entregue aos feitores de plantão e ninguém quer saber de história, tradição e, principalmente, do povo que vive dela, sejam os empregados brancos ou escravos. O mato vai crescendo por todos os lados e já ameaça entrar pelas janelas do casarão. Muita sujeira por fora e por dentro. Curral sem raspagem, horta seca e morta, erva daninha tomando conta do laranjal e de outros pés. Dinheiro de leite e café que ninguém sabe onde está. Criação morrendo e empregado fraco, doente, saúde ruim. Vantagem, mesmo que pouca, só para feitor e capitão do mato. E isso é o que mais tem lá. O sol está sem brilho no alto da serra.
O povo de Vila Serena diz, entre dentes, que o problema é o seu seleto grupo de comparsas, que a exemplo de outros grupos de coronéis, fidalgos, senhores de engenho, fazendeiros pequenos e grandes e alguns barões, só mudam o endereço e a identificação. Os objetivos sempre são os mesmos: fazer de seu povo o motriz de seus interesses pessoais e alimentar as ratazanas de seu porão.
No bazar de Dondinha, semana dessas, só se falava nisso e no exemplo claro da máquina de sujeira que virou aquela fazenda, principalmente por contratar para tomar conta do galinheiro o maior criador de raposas da região, o Tonzito Diamante. Andam dizendo que as raposas estão gordas de dar gosto. O povo chora e diz que a Fazenda das Acácias não tem um coronel de verdade já faz tempo. Só foi tomada por barão louco e corvo velhaco nos últimos anos.
Enquanto isso sofrem empregados brancos, pés de laranja, galinhas, hortas e escravos. Todos à procura do sol no alto da serra.      
 

sexta-feira, 12 de abril de 2013


                   Verdades sujas e pequenas certezas

 

Deixe de lado suas pequenas certezas e seja uma mistura de Pollock e Picasso, jogando suas grandes e sujas verdades numa tela dois por dois. Mande as tradições e a regras hipócritas para um lugar bem distante, como o fez Vinicius numa noite belo-horizontina regada ao bom que vem da Escócia.

Mande sua caretice calculada te acompanhar ao banheiro, enquanto lava o rosto e divide o espelho com o real de uma vida repleta de teatro amador. Jogue-a no vaso e tente coragem para a descarga, junto com a goma que mascava para ser popular.

Perca a vontade de ser engraçado e social. Rasgue o compromisso com a estética e alimente seus pensamentos libidinosos com a sobrinha de dezoito anos. Pare de fingir que ama e de encaixar todo mundo no tabuleiro de suas satisfações e interesses. Pare de beber destilado de cara feia para perder barriga e ganhar promoção no emprego e rasgue de sua agenda profana as descabidas metas emergentes e babacas para comprar um carro novo e usar Ray-Ban.

Desintoxica-se dos valores acumulativos e veja a vida do lado de fora da janela, passando como um trem-bala cheio de arte e arrepio na espinha. E por falar em arrepio na espinha, deixa o suor escorrer pela testa, convalesce e sente o cheiro da catarse que subiu no quarto quente. Nada de levantar antes da hora. Goza a vida. E por falar em gozar, goze uma pessoa por dia.

Não tente entender semiótica. Não fique acordado para o Oscar. Não tente levar a vida de Tom. Não tente entender poesia sistematicamente. Não tente ser sensível. Tente limar seus preconceitos inúteis e não fume para aparecer em festinha fútil.

Não pare para lembrar de tudo de idiota que fez, falou, escreveu e sentiu no passado. Tudo valeu alguma coisa. Não tente fugir da infantilidade que lhe acomete e lembre-se que só os índios do século XVI e os miseráveis da seca não são burgueses.

Saia da disputa pequena e veja o que há de bom nas entrelinhas, no cruzar de pernas de Sharon Stone e nas tiras pornográficas de Zéfiro.

Se você achou esse texto chato e confuso, ótimo. Algumas boas coisas da vida são fugir do cartesiano, tomar um porre de vez em quando e não ser entendido. Portanto, não o tente decifrar e torná-lo lógico ao seu ponto de vista, muito menos seguir suas dicas. E antes de tudo, aja naturalmente.

Todo mundo possui verdades sujas na gaveta e pequenas certezas.
 
 
 
* Texto publicado no livro "Crônicas de um repórter", lançado em 2010.

sexta-feira, 5 de abril de 2013


Viva Bukowski

 Fui apresentado ao poeta, contista e romancista alemão Henry Charles Bukowski (1920-1994) pelas mãos de minha irmã Alessandra Guimarães (para mim, Tandinha).  Na ocasião, lembrava vagamente de sua figura e de alguns trechos de sua obra, sempre tocante. Lembrava também do filme Barfly, baseado em sua vida e obra e estrelado pelo ator Mickey Rourke, se não me engano em 1987.

Não sei se pelo momento ou pelo acesso a pontos de sua obra que me chamaram bastante atenção, senti ânsia em ser um discípulo de Bukowski (recolhido devidamente a minha insignificância, pois talvez me faltem talento e fígado).

Num copo cheio de paradoxos, Bukowski ganhou respeito e discriminação, foi amado e odiado e teve fama e rejeição por apenas um motivo: ser o que era. Sem falsetes, tipos, adaptações ao meio e floreios para agradar esse ou aquele. Bukowski era, sem entrar no mérito técnico-literário, o sonho de ser de todo escritor. Principalmente dos adeptos ao submundo dos copos, mulheres, noite e boêmia.

Ser o que era e falar o que pensava foi exatamente o que me excitou em Bukowski.  Ele se apresentava ao mundo, se inseria nele, tecia opiniões sobre seu meio e escrevia sua consistente e desenfreada obra sem se preocupar com os resultados. Não media ações. Não vendia suas opiniões para se enquadrar aos padrões da sociedade. Bukowski vivia. Se para alguns, tratava-se apenas de um bêbado desbocado, não importa. Ele vivia.
 
Apesar de não ter morrido há tanto tempo, imagino como seria Bukowski nos dias de hoje, onde se prevalece o interesse da opinião formatada para agradar uns e outros.

Não tenho talento para tanto, mas tentarei ser um discípulo de Bukowski. Talvez já seja um bom aluno no quesito copo e ainda um aspirante inapto no campo da literatura. Mas o mais importante é tentar segui-lo no campo da verdade e da opinião sem preço. Não precisamos concordar com ele, claro, mas seu tapa na hipocrisia estabelecida pela sociedade basta.

E VIVA Bukowski! E viva Arrico Barnabé! E viva Torquato Neto! E viva Plínio Marcos! Obrigado Tandinha!
E viva Bukowski!

 
Para ilustrar o que digo, apenas um exemplo: Um trecho da opinião de Bukowski sobre Willian Shakespeare:

“É ilegível e está demasiadamente valorizado. Só que as pessoas não querem ouvir isso. Ninguém pode atacar templos. Shakespeare foi fixado à mente das pessoas ao longo dos séculos. Você pode dizer que fulano é um péssimo ator, mas não pode dizer que Shakespeare é uma m… Quando alguma coisa dura muito tempo, os esnobes começam a se agarrar a ela como pás de um ventilador. Quando os esnobes sentem que algo é seguro, se apegam. E se você lhes disser a verdade, eles se transformam em bichos. Não suportam a negação. É como atacar o seu próprio processo de pensamento. Esses caras me enchem o saco.”

segunda-feira, 1 de abril de 2013


A ditadura sem farda

 

O mestre e Nobel Saramago já duvidava da democracia em alguns de seus escritos e entrevistas. Eu, que de mestria só carrego a do botequismo e estou anos luz do Nobel literário, só tenho a concordar.

E além de duvidar um pouco da dita democracia plena, chego até a recear se as temerosas censura e ditadura morreram mesmo, junto com a truculência dos antigos generais. É que começo a desconfiar (ou já desconfio há muito tempo, sei lá) se estamos mesmo diante de uma democracia ampla e irrestrita, dados os exemplos de uma mordaça velada e sob cortinas espessas que nos assola.

Veja nossa cidade, por exemplo. Assusta o grande número de boas mentes pensantes que se calam diante de tantos temas a debater e críticas negativas e positivas a se fazer. Excetuando alguns casos de coragem, independência e lucidez, que exemplifico usando os amigos Márcio Passos, Fernando Garcia, Marcelo Melo e Delci Couto, e, justiça seja feita, alguns outros indignados mais esporádicos, tem muita gente calada por medo e subserviência.

Dito isto, sinto uma imposição ao silêncio que beira o ridículo, ás vezes. Haja vista que, para mim, homem sem opinião é homem morto. O que parece vigorar é a ordem da preservação de benesses e posições na esfera do poder (?) e da vaga garantida na roda pseudo-burguesa da sociedade de festinhas que rendem fotos nas sociais. E a verdade é que tem muita gente que não diz e opina porque tem medo de represálias, sejam financeiras ou sociais. Isso é ou não ditadura? Ditadura sem farda, cassetetes e tortura física, mas que representa perigo. Até o bar que se freqüenta é alvo de vigília nos dias de hoje, muito diferente dos bons tempos de antigos governantes.

Não se trata de rancor, amargura ou ânsia em ser dono da verdade, da moral e dos bons costumes quando fora do sistema (como em alguns casos). É apenas o relato de um cidadão que duvida da democracia tão falada e propagada pelos populistas de plantão. E quando falo em opinião, quero dizer opinião sobre tudo e qualquer coisa, e não aquela restrita à administração pública. E repito: homem sem opinião é homem morto.

Neste ensaio, mestre Saramago, a cegueira vem acompanhada de uma temerosa, triste e melancólica mudez.

   

segunda-feira, 25 de março de 2013


Para começar a semana, um texto que estará em meu próximo livro. Melhor dizendo, no livro do  meu amigo Wandão Madruga.

 

Deus ou Sartre em nuvens vermelhas

           

Era só o vizinho do 306 começar a xingar sua esposa e perguntar se Deus realmente existia, e se existia porque o abandonara em companhia daquela mulher, que o do 401 jogava Demônios da Garoa bem alto na vitrola e se punha a fritar pururucas. Parecia querer provar que Ele existia. Era sábado pela manhã.

A moça de olheiras do 512 subia as escadas com raiva, pisando forte e reclamando de Deus por ter quebrado o salto esquerdo e pela noite fraca. Perguntava, entre bufadas, se Ele realmente existia. O do 401 parecia adivinhar. Ligava a TV num jogão do maraca e abria logo duas. Era quinta à noite.

As contas do casal do 703 pareciam não querer fechar e a mulher, serena e quase resignada, entre lágrimas, pedia respostas a Deus, perguntando se Ele realmente existia e se podia ouvi-la. Nosso amigo do 401, sentado no vaso sanitário, fazia palavras cruzadas e lia Sartre. Era terça à tardinha.

A sofrida vizinha do 822 chorava baixinho na sacada, cansada de mais uma noitada do marido, perguntando às nuvens vermelhas se Deus era pra valer. Daí podia-se sentir no ar, vindo do 401, o cheiro bom de um café saindo na hora e o resmungar de uma vitrolinha tocando samba antigo. Era segunda pela manhã.

Não vou me fazer de santo e dizer que nunca duvidei de sua existência, ainda mais eu, que nos idos românticos e ásperos flertava com o partidão e só lia e ouvia Gabeira e Caetano. Mas realmente há mais motivos para acreditar do que para duvidar. Afinal, há muito fantástico em meio à dureza. Há muita beleza em meio ao caos.

É como sempre dizia meu vizinho do 401: “tava tudo lindo, nós é que bagunçamos tudo”. Ele estava certo, em sua mania incessante e boa de mostrar para todos que Deus existia. E ele próprio provou isso, na tarde de sexta que saiu voando pela janela do 401 em meio às nuvens vermelhas, espalhando Sartre, palavras cruzadas e pururucas frescas a todos lá embaixo.