A loucura artística de Bispo
A arte, em sua essência, é
realmente algo que nos move, nos toca, de forma imponderável. E isso independe
de gênero, estilo, linguagem, expressão e abrangência. Falo isso após ler boa
reportagem sobre uma figura que me interessa profundamente há quase 20 anos, o
artista plástico sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909-1989).
Estabelecido como louco (defino
assim por não ter aval e coragem de assinar embaixo sua loucura, ou por não ter
a exata noção do que seja loucura, até porque, louco, para mim, é quem vota em
Renan Calheiros, por exemplo) e confinado no manicômio carioca denominado
"Colônia Juliano Moreira" por cinqüenta anos, Arthur Bispo do Rosário criou
incansavelmente obras de extrema sensibilidade artística. Peças de um
artesanato com toques regionais e tintas de um humanismo pouco vistos em
galerias com assinaturas consagradas mundo afora. A fuga de sua solidão e dita
esquizofrenia estava na arte criativa.
Conheci parte de sua obra em
1994, quando adquiri o disco Rio
Severino, da banda Os Paralamas do Sucesso.
Capa, contracapa e encartes do vinil eram decorados com reproduções da obra de
Arthur. Por sinal, na minha opinião, além de ser o melhor disco da banda (da
qual sou fã), é o melhor trabalho gráfico da discografia do trio. Um show que me
chamou profundamente a atenção para o trabalho desse artista.
Quando nos deparamos com a obra
de Arthur, uma mistura de emoção e de questionamento nos assola. É que fica
sempre a interrogação sobre uma questão que se torna clássica diante de sua
obra: como pode alguém diagnosticado como louco, internado num manicômio
(“cemitério dos vivos”, como disse Lima Barreto), totalmente excluído da
sociedade e atirado ao limbo de um mundo à margem, produzir tanto e tão bem?
Para mim, é a magia da arte. A magia de sua essência que cito no início do
texto. O que nos toca e move. Isso, claro, retido à minha condição de não ser
crítico e entendido em artes plásticas. Até porque não discuto aqui as
técnicas, linguagens e demais blábláblás acadêmicos que possam nortear as obras
de Rosário. Talvez venha daí uma questão até mais profunda, a da dúvida em o
que realmente seja loucura ou a de que a arte não seja expressão exclusiva dos
“sãos”.
Viva Arthur Bispo do Rosário e
sua arte louca! Ou sua loucura artística!