Sobre bebidas e bares
Nunca bebi para me sentir mais macho, viril, poderoso,
engraçado ou conquistador. Sempre bebi por prazer. E no pacote dos prazeres trazidos
pela bebida está a certeza da verdade em mim.
A verdade latente nos bate a cara no momento em que
nos embriagamos. As mais intensas alegrias e as mais sofríveis dores nos
acometem de forma limpa e verdadeira na mesa do bar ou de casa, na companhia
das garrafas. Quem bebe para aparecer socialmente ou para simplesmente ficar
bêbado deveria ser preso ou proibido de beber.
Não procuro na bebida nada que não seja me satisfazer.
Não busco dor, melancolia, mágoa ou alegria fabricada. Procuro só o prazer de
estar degustando algo que gosto em lugar que aprecio. E esse detalhe é
importante, pois beber em lugar que não te aconchegue é o pior dos mundos. A
bebida precisa do lugar e há lugares que precisam de bebida.
E falando em lugar, muitas pessoas se vangloriam e se
rotulam como entendedores do que seja um bom bar. E, na maioria das vezes, são
aqueles que não entendem nada de bar e só freqüentam lugares sem aconchego e
repleto de maus bebedores. Cidadãos barulhentos cheios de risos bobos e fáceis
que saem do trabalho ou da escola, tomam dois copos (ou taças, o que é pior) e
acham que bebem e são freqüentadores de bares. Existe até aquele concurso
patético que chamam de “Comida de Boteco”, famoso e prestigiado na capital, mas
mentiroso em sua essência, pois os seus concorrentes nunca foram e nunca serão
botecos. São bares requintados ou emergentes que abarcam a jovem burguesia
belo-horizontina metida à besta e os turistas deslumbrados com suas máquinas
digitais frenéticas e celulares.
Boteco tem que ter alma de boteco. È isso, boteco tem
alma. Tem espírito. Tem atmosfera. Como os da Lagoinha, Floresta e Santa
Tereza, em se tratando de BH, como citei há pouco. Bar tem que ter aura.
Botequeiro que se preza não senta em mesa de madeira envernizada e come camarão
ao molho de alcaparras, iluminado por duzentas lâmpadas de mil wolts. E antes
de tudo, boteco tem que ser intimista. Espalhafatoso, barulhento e agregador é
parque de diversões e shopping center.
Diga onde e com quem bebes e te direi quem és. Deu
sede.