segunda-feira, 29 de abril de 2013


Sobre bebidas e bares

 

Nunca bebi para me sentir mais macho, viril, poderoso, engraçado ou conquistador. Sempre bebi por prazer. E no pacote dos prazeres trazidos pela bebida está a certeza da verdade em mim.

A verdade latente nos bate a cara no momento em que nos embriagamos. As mais intensas alegrias e as mais sofríveis dores nos acometem de forma limpa e verdadeira na mesa do bar ou de casa, na companhia das garrafas. Quem bebe para aparecer socialmente ou para simplesmente ficar bêbado deveria ser preso ou proibido de beber.

Não procuro na bebida nada que não seja me satisfazer. Não busco dor, melancolia, mágoa ou alegria fabricada. Procuro só o prazer de estar degustando algo que gosto em lugar que aprecio. E esse detalhe é importante, pois beber em lugar que não te aconchegue é o pior dos mundos. A bebida precisa do lugar e há lugares que precisam de bebida.

E falando em lugar, muitas pessoas se vangloriam e se rotulam como entendedores do que seja um bom bar. E, na maioria das vezes, são aqueles que não entendem nada de bar e só freqüentam lugares sem aconchego e repleto de maus bebedores. Cidadãos barulhentos cheios de risos bobos e fáceis que saem do trabalho ou da escola, tomam dois copos (ou taças, o que é pior) e acham que bebem e são freqüentadores de bares. Existe até aquele concurso patético que chamam de “Comida de Boteco”, famoso e prestigiado na capital, mas mentiroso em sua essência, pois os seus concorrentes nunca foram e nunca serão botecos. São bares requintados ou emergentes que abarcam a jovem burguesia belo-horizontina metida à besta e os turistas deslumbrados com suas máquinas digitais frenéticas e celulares.

Boteco tem que ter alma de boteco. È isso, boteco tem alma. Tem espírito. Tem atmosfera. Como os da Lagoinha, Floresta e Santa Tereza, em se tratando de BH, como citei há pouco. Bar tem que ter aura. Botequeiro que se preza não senta em mesa de madeira envernizada e come camarão ao molho de alcaparras, iluminado por duzentas lâmpadas de mil wolts. E antes de tudo, boteco tem que ser intimista. Espalhafatoso, barulhento e agregador é parque de diversões e shopping center.

Diga onde e com quem bebes e te direi quem és. Deu sede.

sexta-feira, 19 de abril de 2013


A fazenda que não era modelo
Na Fazenda das Acácias está tudo revirado. Parece fruto da cachaça ruim que andam dando para o Coronel Teobaldo, que acabou de arrematar as terras do falecido Coronel Pranteneu. Este, por sua vez, entrou de gaiato no certame dos poderosos, foi excomungado até por pai de santo e virou peça de museu lá pelas bandas de Jupiara.
Mas voltando às Acácias, a coisa ta danada, como diria Vô Sabino. A fazenda está entregue aos feitores de plantão e ninguém quer saber de história, tradição e, principalmente, do povo que vive dela, sejam os empregados brancos ou escravos. O mato vai crescendo por todos os lados e já ameaça entrar pelas janelas do casarão. Muita sujeira por fora e por dentro. Curral sem raspagem, horta seca e morta, erva daninha tomando conta do laranjal e de outros pés. Dinheiro de leite e café que ninguém sabe onde está. Criação morrendo e empregado fraco, doente, saúde ruim. Vantagem, mesmo que pouca, só para feitor e capitão do mato. E isso é o que mais tem lá. O sol está sem brilho no alto da serra.
O povo de Vila Serena diz, entre dentes, que o problema é o seu seleto grupo de comparsas, que a exemplo de outros grupos de coronéis, fidalgos, senhores de engenho, fazendeiros pequenos e grandes e alguns barões, só mudam o endereço e a identificação. Os objetivos sempre são os mesmos: fazer de seu povo o motriz de seus interesses pessoais e alimentar as ratazanas de seu porão.
No bazar de Dondinha, semana dessas, só se falava nisso e no exemplo claro da máquina de sujeira que virou aquela fazenda, principalmente por contratar para tomar conta do galinheiro o maior criador de raposas da região, o Tonzito Diamante. Andam dizendo que as raposas estão gordas de dar gosto. O povo chora e diz que a Fazenda das Acácias não tem um coronel de verdade já faz tempo. Só foi tomada por barão louco e corvo velhaco nos últimos anos.
Enquanto isso sofrem empregados brancos, pés de laranja, galinhas, hortas e escravos. Todos à procura do sol no alto da serra.      
 

sexta-feira, 12 de abril de 2013


                   Verdades sujas e pequenas certezas

 

Deixe de lado suas pequenas certezas e seja uma mistura de Pollock e Picasso, jogando suas grandes e sujas verdades numa tela dois por dois. Mande as tradições e a regras hipócritas para um lugar bem distante, como o fez Vinicius numa noite belo-horizontina regada ao bom que vem da Escócia.

Mande sua caretice calculada te acompanhar ao banheiro, enquanto lava o rosto e divide o espelho com o real de uma vida repleta de teatro amador. Jogue-a no vaso e tente coragem para a descarga, junto com a goma que mascava para ser popular.

Perca a vontade de ser engraçado e social. Rasgue o compromisso com a estética e alimente seus pensamentos libidinosos com a sobrinha de dezoito anos. Pare de fingir que ama e de encaixar todo mundo no tabuleiro de suas satisfações e interesses. Pare de beber destilado de cara feia para perder barriga e ganhar promoção no emprego e rasgue de sua agenda profana as descabidas metas emergentes e babacas para comprar um carro novo e usar Ray-Ban.

Desintoxica-se dos valores acumulativos e veja a vida do lado de fora da janela, passando como um trem-bala cheio de arte e arrepio na espinha. E por falar em arrepio na espinha, deixa o suor escorrer pela testa, convalesce e sente o cheiro da catarse que subiu no quarto quente. Nada de levantar antes da hora. Goza a vida. E por falar em gozar, goze uma pessoa por dia.

Não tente entender semiótica. Não fique acordado para o Oscar. Não tente levar a vida de Tom. Não tente entender poesia sistematicamente. Não tente ser sensível. Tente limar seus preconceitos inúteis e não fume para aparecer em festinha fútil.

Não pare para lembrar de tudo de idiota que fez, falou, escreveu e sentiu no passado. Tudo valeu alguma coisa. Não tente fugir da infantilidade que lhe acomete e lembre-se que só os índios do século XVI e os miseráveis da seca não são burgueses.

Saia da disputa pequena e veja o que há de bom nas entrelinhas, no cruzar de pernas de Sharon Stone e nas tiras pornográficas de Zéfiro.

Se você achou esse texto chato e confuso, ótimo. Algumas boas coisas da vida são fugir do cartesiano, tomar um porre de vez em quando e não ser entendido. Portanto, não o tente decifrar e torná-lo lógico ao seu ponto de vista, muito menos seguir suas dicas. E antes de tudo, aja naturalmente.

Todo mundo possui verdades sujas na gaveta e pequenas certezas.
 
 
 
* Texto publicado no livro "Crônicas de um repórter", lançado em 2010.

sexta-feira, 5 de abril de 2013


Viva Bukowski

 Fui apresentado ao poeta, contista e romancista alemão Henry Charles Bukowski (1920-1994) pelas mãos de minha irmã Alessandra Guimarães (para mim, Tandinha).  Na ocasião, lembrava vagamente de sua figura e de alguns trechos de sua obra, sempre tocante. Lembrava também do filme Barfly, baseado em sua vida e obra e estrelado pelo ator Mickey Rourke, se não me engano em 1987.

Não sei se pelo momento ou pelo acesso a pontos de sua obra que me chamaram bastante atenção, senti ânsia em ser um discípulo de Bukowski (recolhido devidamente a minha insignificância, pois talvez me faltem talento e fígado).

Num copo cheio de paradoxos, Bukowski ganhou respeito e discriminação, foi amado e odiado e teve fama e rejeição por apenas um motivo: ser o que era. Sem falsetes, tipos, adaptações ao meio e floreios para agradar esse ou aquele. Bukowski era, sem entrar no mérito técnico-literário, o sonho de ser de todo escritor. Principalmente dos adeptos ao submundo dos copos, mulheres, noite e boêmia.

Ser o que era e falar o que pensava foi exatamente o que me excitou em Bukowski.  Ele se apresentava ao mundo, se inseria nele, tecia opiniões sobre seu meio e escrevia sua consistente e desenfreada obra sem se preocupar com os resultados. Não media ações. Não vendia suas opiniões para se enquadrar aos padrões da sociedade. Bukowski vivia. Se para alguns, tratava-se apenas de um bêbado desbocado, não importa. Ele vivia.
 
Apesar de não ter morrido há tanto tempo, imagino como seria Bukowski nos dias de hoje, onde se prevalece o interesse da opinião formatada para agradar uns e outros.

Não tenho talento para tanto, mas tentarei ser um discípulo de Bukowski. Talvez já seja um bom aluno no quesito copo e ainda um aspirante inapto no campo da literatura. Mas o mais importante é tentar segui-lo no campo da verdade e da opinião sem preço. Não precisamos concordar com ele, claro, mas seu tapa na hipocrisia estabelecida pela sociedade basta.

E VIVA Bukowski! E viva Arrico Barnabé! E viva Torquato Neto! E viva Plínio Marcos! Obrigado Tandinha!
E viva Bukowski!

 
Para ilustrar o que digo, apenas um exemplo: Um trecho da opinião de Bukowski sobre Willian Shakespeare:

“É ilegível e está demasiadamente valorizado. Só que as pessoas não querem ouvir isso. Ninguém pode atacar templos. Shakespeare foi fixado à mente das pessoas ao longo dos séculos. Você pode dizer que fulano é um péssimo ator, mas não pode dizer que Shakespeare é uma m… Quando alguma coisa dura muito tempo, os esnobes começam a se agarrar a ela como pás de um ventilador. Quando os esnobes sentem que algo é seguro, se apegam. E se você lhes disser a verdade, eles se transformam em bichos. Não suportam a negação. É como atacar o seu próprio processo de pensamento. Esses caras me enchem o saco.”

segunda-feira, 1 de abril de 2013


A ditadura sem farda

 

O mestre e Nobel Saramago já duvidava da democracia em alguns de seus escritos e entrevistas. Eu, que de mestria só carrego a do botequismo e estou anos luz do Nobel literário, só tenho a concordar.

E além de duvidar um pouco da dita democracia plena, chego até a recear se as temerosas censura e ditadura morreram mesmo, junto com a truculência dos antigos generais. É que começo a desconfiar (ou já desconfio há muito tempo, sei lá) se estamos mesmo diante de uma democracia ampla e irrestrita, dados os exemplos de uma mordaça velada e sob cortinas espessas que nos assola.

Veja nossa cidade, por exemplo. Assusta o grande número de boas mentes pensantes que se calam diante de tantos temas a debater e críticas negativas e positivas a se fazer. Excetuando alguns casos de coragem, independência e lucidez, que exemplifico usando os amigos Márcio Passos, Fernando Garcia, Marcelo Melo e Delci Couto, e, justiça seja feita, alguns outros indignados mais esporádicos, tem muita gente calada por medo e subserviência.

Dito isto, sinto uma imposição ao silêncio que beira o ridículo, ás vezes. Haja vista que, para mim, homem sem opinião é homem morto. O que parece vigorar é a ordem da preservação de benesses e posições na esfera do poder (?) e da vaga garantida na roda pseudo-burguesa da sociedade de festinhas que rendem fotos nas sociais. E a verdade é que tem muita gente que não diz e opina porque tem medo de represálias, sejam financeiras ou sociais. Isso é ou não ditadura? Ditadura sem farda, cassetetes e tortura física, mas que representa perigo. Até o bar que se freqüenta é alvo de vigília nos dias de hoje, muito diferente dos bons tempos de antigos governantes.

Não se trata de rancor, amargura ou ânsia em ser dono da verdade, da moral e dos bons costumes quando fora do sistema (como em alguns casos). É apenas o relato de um cidadão que duvida da democracia tão falada e propagada pelos populistas de plantão. E quando falo em opinião, quero dizer opinião sobre tudo e qualquer coisa, e não aquela restrita à administração pública. E repito: homem sem opinião é homem morto.

Neste ensaio, mestre Saramago, a cegueira vem acompanhada de uma temerosa, triste e melancólica mudez.