A fazenda que não era modelo III
Pranteneu nasceu Francisco
Pranteneu Calixto num março chuvoso. Em tarde de mormaço, cinza e sem
entusiasmo. A cabeça já era avantajada desde então e sinhá Cândida, a parteira,
foi quem falou primeiro que seria gente importante, inteligente, só pelo fato
da cabeçorra. Até que importante foi, já a inteligência ficou por conta de
análises e bajulações.
As pernas finas, as camisas
abotoadas ao gogó e a já dita voz fraca de sacristão afeminado já lhe
emprestaram ar de pau mandado. Ar de bobo da corte iludido com os que estavam
em sua volta, a bater-lhe nas costas.
Mesmo com os estudos e a retórica
de líder dos sem o que liderar, era tido como insignificante pelos seus pares,
que se resumiam em escritores de versinhos puros, líderes estudantis virgens,
moças feias sem carinho e trabalhadores trapaceados. Mas foi calando aos poucos
os que nunca o enxergaram como dono do poder. Foi buscá-lo com toda a energia e
o conseguiu, se tornando fidalgo respeitado em Vila Serena e região, se
portando como salvador da pátria para muitos ali, cansados da derrama imposta
pelo barão Epitácio Amendoeira. Este, por sua vez, era populista dos mais
gabaritados, aliado aos outros poderosos e responsável em sugar as tetas mais
robustas da Fazenda das Acácias e, por conseguinte, iludir e tapear o povo de
Vila Serena.
Mas eis que aquele menino ruim de
bola, com jeitinho de chibungo e cara de bobo, conseguiu o que queria, com
tanta persistência e sabendo jogar o jogo. Driblou os donos do poder local e,
numa tacada certeira, contando com a ajuda inocente da baronesa Ilca Salastião,
se apoderou das terras e das riquezas da Fazenda das Acácias. Começava ali a
saga infeliz e tirana do menino sem estampa de barão, mas que se alçou no
certame dos poderosos e sentiu de perto as aventuras e desventuras do poder. E
como diria sinhá Cândida, aquela que anunciou na tarde de mormaço a chegada da
cabeça avantajada e dona de inteligência vivaz, “dê o poder ao homem e irá
conhecê-lo de verdade”.
A partir daí o povo de Vila
Serena e da Fazenda das Acácias conheceu melhor o Coronel Pranteneu, que hoje é
ex-barão, ex-rei, e até a chegada de Coronel Teobaldo, era ex-capeta.