sexta-feira, 10 de maio de 2013


A fazenda que não era modelo II

 

Há quem sinta saudade de Coronel Pranteneu. Há quem ache isso exagero, impaciência, intolerância e certa perseguição medida. O fato é que muitos em Vila Serena estranham como as coisas mudam repentinamente na Fazenda das Acácias. Outro dia mesmo o ex-mandatário era o vilão-mor, espelho do diabo e malfeitor de onze a cada dez maldades por aquelas bandas. Hoje se cogita homenageá-lo como herói imaculado e vítima de línguas atrozes. O demônio agora se veste de Coronel Teobaldo.

Para Dondinha do bazar, pano de prato ao ombro e mão sempre molhada, asseada que só, o povo era a pior parte da história. Endeusava e demonizava como quem come uma banana prata. “O sujeito hoje é capeta. Ruim e burro que a peste. Amanhã é santo e pra anjo só falta asa”, dizia aos fregueses habituais. Uns mais molhados que os outros.  

Desde que Pranteneu fugiu para as bandas de Jupiara, para tomar conta de uma criação de cágados baianos, acolhido por outros de sua estirpe de velhacos, o povo agora crucifica Teobaldo. O novo patrão e dono das terras e riquezas da Acácias, com seus olhos arregalados e boca entreaberta de chefe obtuso, parece estar meio perdido com o poder que os barões lhe deram.

“Vá lá e cuide da Fazenda das Acácias. Precisamos dos benefícios daquela terra. Ela nos é valiosa. Cale os pensantes, rasgue as alforrias, minta para a Vila Serena e oprima os empregados da Casa Grande. Na senzala, chicote e rédea curta. Com o tempo, você ainda será aplaudido só pela ração que rasga dos sacos”, diziam os barões, com seus andares mancos e barrigas saltando das calças.

E é assim na Fazenda das Acácias. Os barões mandam e os coronéis compram as terras e a tocam à moda dos primeiros. Expulsaram Pranteneu e o pintaram de satanás, mesmo tendo ele aquele ar e fala de sacristão afeminado. Agora terão que cuidar para que empregados, escravos e ainda o povo da vila não faça o mesmo com Teobaldo, que, por feliz ou infeliz coincidência, também tem voz pequena.  

E mesmo apesar de tudo que se passou, há os que dizem sentir saudades do Coronel Pranteneu. O ex-capeta.