A fazenda que não era modelo II
Há quem sinta
saudade de Coronel Pranteneu. Há quem ache isso exagero, impaciência,
intolerância e certa perseguição medida. O fato é que muitos em Vila Serena
estranham como as coisas mudam repentinamente na Fazenda das Acácias. Outro dia
mesmo o ex-mandatário era o vilão-mor, espelho do diabo e malfeitor de onze a
cada dez maldades por aquelas bandas. Hoje se cogita homenageá-lo como herói imaculado
e vítima de línguas atrozes. O demônio agora se veste de Coronel Teobaldo.
Para Dondinha
do bazar, pano de prato ao ombro e mão sempre molhada, asseada que só, o povo
era a pior parte da história. Endeusava e demonizava como quem come uma banana
prata. “O sujeito hoje é capeta. Ruim e burro que a peste. Amanhã é santo e pra
anjo só falta asa”, dizia aos fregueses habituais. Uns mais molhados que os outros.
Desde que
Pranteneu fugiu para as bandas de Jupiara, para tomar conta de uma criação de
cágados baianos, acolhido por outros de sua estirpe de velhacos, o povo agora
crucifica Teobaldo. O novo patrão e dono das terras e riquezas da Acácias, com
seus olhos arregalados e boca entreaberta de chefe obtuso, parece estar meio
perdido com o poder que os barões lhe deram.
“Vá lá e cuide
da Fazenda das Acácias. Precisamos dos benefícios daquela terra. Ela nos é
valiosa. Cale os pensantes, rasgue as alforrias, minta para a Vila Serena e
oprima os empregados da Casa Grande. Na senzala, chicote e rédea curta. Com o
tempo, você ainda será aplaudido só pela ração que rasga dos sacos”, diziam os
barões, com seus andares mancos e barrigas saltando das calças.
E é assim na
Fazenda das Acácias. Os barões mandam e os coronéis compram as terras e a tocam
à moda dos primeiros. Expulsaram Pranteneu e o pintaram de satanás, mesmo tendo
ele aquele ar e fala de sacristão afeminado. Agora terão que cuidar para que
empregados, escravos e ainda o povo da vila não faça o mesmo com Teobaldo, que,
por feliz ou infeliz coincidência, também tem voz pequena.
E mesmo apesar
de tudo que se passou, há os que dizem sentir saudades do Coronel Pranteneu. O
ex-capeta.