quarta-feira, 12 de junho de 2013


Zumbis

 

E lá se vão os zumbis dirigindo seus carros novos. E suas consciências velhas e obesas. E seus carrinhos cheios de compras e suas vidas cheias de regras.

E lá se vão os mortos-vivos dirigindo suas realidades blindadas. E suas costas cheias de tapinhas. E suas conveniências amordaçadas. E seus canais de TV. E suas sobremesas calóricas. E suas vidas pré-fabricadas, arruinadas pela mudez calculada.

E lá se vão os servos do poder com suas opiniões plastificadas e vencidas.

Escravos da ordem estabelecida. Em suas caminhadas sociais às suas academias inúteis. Em seus exercícios enquadrantes de fim de tarde. Com suas nádegas flácidas, abdomens enfárticos e cérebros doutrinados.

E lá se vão os homens sem voz. Crucificados pela chefia dominante. Parceiros do medo e da solidão. Com suas cervejas importadas e limitadas. Com suas amizades movidas a interesse e tira-gosto industrializado. Com seus medos disfarçados de cautela, sua intolerância disfarçada de moral, sua arrogância disfarçada de intelecto e seus falsos pudores disfarçados de respeito.

E lá se vão os zumbis, vagando sob marcas famosas. Transando de olho no relógio. Comemorando ereções e sua heterossexualidade. Escondendo desejos profanos e aliviando sua consciência mamute no dízimo de sexta-feira. Sujando as mãos de um sacerdote político com seus lábios impuros.

E lá se vão os zumbis, fugindo de suas covas. Em vão. Lutando desesperadamente para chegar à frente. Que frente?

Lá se vão os parceiros da ordem. Vendidos e mortos, assim como os zumbis cheios de regras.

E seus carrinhos cheios de compra. E medo.