terça-feira, 30 de julho de 2013


A fazenda que não era modelo IV

 

Mas falemos da Acácias. Fazenda sempre considerada promissora, de gente trabalhadora e futuro certo para os entendidos da Vila Serena. Desde os pioneiros, sempre se falava de trabalho árduo, de força conjunta e povo compromissado com seu crescimento e beleza. Diziam que até os escravos eram decerto felizes, mesmo com a labuta de vida tão dura, já velha conhecida destes. Diziam as boas línguas que, apesar da dureza de um trabalho muito pesado sob chuva ou sol e do chão duro e frio para a noite, nunca se vira chicote ou corrente na Acácias.  

Dizem que de um córrego sem muita serventia, de uns engenhos velhos e ruídos e de alguns pés de um pomar mal formado, foram surgindo celeiro novo, casa grande e senzala bem construída pelos seus trabalhadores brancos e escravos. Já se viam plantações em terrenos bem aproveitados e a Acácias ia tomando rumo de fazenda imponente, de encher os olhos de esperança e o coração de orgulho de quem dali se sustentava. Tudo obra de seu primeiro Coronel e dono, um tal Alcebíades Alencar, que hoje, a exemplo de outras propriedades históricas, é figura estrábica no quadro na parede da grande sala de visitas, com moldura de imbúia bem tratada.

O tempo passou, outros grandes coronéis passaram por lá, por herança, compra ou batalha de sangue, e Acácias continua de pé. Produz pouco, não é nem sombra da abundância de outrora. Também não recebe muitas visitas, como acontecia num passado cada vez mais distante e saudoso, quando famílias eram fotografadas ou pintadas em tela em frente ao casarão, no jardim de flores bem vivas ou nos pomares ricos em variedades de frutas robustas.

Acácias já foi terra que cheirava futuro, sem se esquecer do passado e com os pés no melhor presente. Com gente amiga e confidente, sem rixas e duelos de sangue. Hoje se desvirtuou em terra de ninguém e passado, presente e futuro se emaranham em coisa só, pequena, esquecida, sugada pelos abutres que só querem a carne fácil. Acácias definha, como é dito por alguns entendidos nos secos e molhados da Vila Serena. Ainda é bela aos olhos de quem ali se criou e ganhou cara e vergonha. Mas morre nas mãos de quem só quer dela o sulco de ouro e peleja.

 

segunda-feira, 8 de julho de 2013


A loucura artística de Bispo

 

A arte, em sua essência, é realmente algo que nos move, nos toca, de forma imponderável. E isso independe de gênero, estilo, linguagem, expressão e abrangência. Falo isso após ler boa reportagem sobre uma figura que me interessa profundamente há quase 20 anos, o artista plástico sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909-1989).

Estabelecido como louco (defino assim por não ter aval e coragem de assinar embaixo sua loucura, ou por não ter a exata noção do que seja loucura, até porque, louco, para mim, é quem vota em Renan Calheiros, por exemplo) e confinado no manicômio carioca denominado "Colônia Juliano Moreira" por cinqüenta anos, Arthur Bispo do Rosário criou incansavelmente obras de extrema sensibilidade artística. Peças de um artesanato com toques regionais e tintas de um humanismo pouco vistos em galerias com assinaturas consagradas mundo afora. A fuga de sua solidão e dita esquizofrenia estava na arte criativa.

Conheci parte de sua obra em 1994, quando adquiri o disco Rio Severino, da banda Os Paralamas do Sucesso. Capa, contracapa e encartes do vinil eram decorados com reproduções da obra de Arthur. Por sinal, na minha opinião, além de ser o melhor disco da banda (da qual sou fã), é o melhor trabalho gráfico da discografia do trio. Um show que me chamou profundamente a atenção para o trabalho desse artista.

Quando nos deparamos com a obra de Arthur, uma mistura de emoção e de questionamento nos assola. É que fica sempre a interrogação sobre uma questão que se torna clássica diante de sua obra: como pode alguém diagnosticado como louco, internado num manicômio (“cemitério dos vivos”, como disse Lima Barreto), totalmente excluído da sociedade e atirado ao limbo de um mundo à margem, produzir tanto e tão bem? Para mim, é a magia da arte. A magia de sua essência que cito no início do texto. O que nos toca e move. Isso, claro, retido à minha condição de não ser crítico e entendido em artes plásticas. Até porque não discuto aqui as técnicas, linguagens e demais blábláblás acadêmicos que possam nortear as obras de Rosário. Talvez venha daí uma questão até mais profunda, a da dúvida em o que realmente seja loucura ou a de que a arte não seja expressão exclusiva dos “sãos”.

Viva Arthur Bispo do Rosário e sua arte louca! Ou sua loucura artística!