segunda-feira, 8 de julho de 2013


A loucura artística de Bispo

 

A arte, em sua essência, é realmente algo que nos move, nos toca, de forma imponderável. E isso independe de gênero, estilo, linguagem, expressão e abrangência. Falo isso após ler boa reportagem sobre uma figura que me interessa profundamente há quase 20 anos, o artista plástico sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909-1989).

Estabelecido como louco (defino assim por não ter aval e coragem de assinar embaixo sua loucura, ou por não ter a exata noção do que seja loucura, até porque, louco, para mim, é quem vota em Renan Calheiros, por exemplo) e confinado no manicômio carioca denominado "Colônia Juliano Moreira" por cinqüenta anos, Arthur Bispo do Rosário criou incansavelmente obras de extrema sensibilidade artística. Peças de um artesanato com toques regionais e tintas de um humanismo pouco vistos em galerias com assinaturas consagradas mundo afora. A fuga de sua solidão e dita esquizofrenia estava na arte criativa.

Conheci parte de sua obra em 1994, quando adquiri o disco Rio Severino, da banda Os Paralamas do Sucesso. Capa, contracapa e encartes do vinil eram decorados com reproduções da obra de Arthur. Por sinal, na minha opinião, além de ser o melhor disco da banda (da qual sou fã), é o melhor trabalho gráfico da discografia do trio. Um show que me chamou profundamente a atenção para o trabalho desse artista.

Quando nos deparamos com a obra de Arthur, uma mistura de emoção e de questionamento nos assola. É que fica sempre a interrogação sobre uma questão que se torna clássica diante de sua obra: como pode alguém diagnosticado como louco, internado num manicômio (“cemitério dos vivos”, como disse Lima Barreto), totalmente excluído da sociedade e atirado ao limbo de um mundo à margem, produzir tanto e tão bem? Para mim, é a magia da arte. A magia de sua essência que cito no início do texto. O que nos toca e move. Isso, claro, retido à minha condição de não ser crítico e entendido em artes plásticas. Até porque não discuto aqui as técnicas, linguagens e demais blábláblás acadêmicos que possam nortear as obras de Rosário. Talvez venha daí uma questão até mais profunda, a da dúvida em o que realmente seja loucura ou a de que a arte não seja expressão exclusiva dos “sãos”.

Viva Arthur Bispo do Rosário e sua arte louca! Ou sua loucura artística!  

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