A fazenda que não era modelo IV
Mas
falemos da Acácias. Fazenda sempre considerada promissora, de gente
trabalhadora e futuro certo para os entendidos da Vila Serena. Desde os
pioneiros, sempre se falava de trabalho árduo, de força conjunta e povo
compromissado com seu crescimento e beleza. Diziam que até os escravos eram
decerto felizes, mesmo com a labuta de vida tão dura, já velha conhecida
destes. Diziam as boas línguas que, apesar da dureza de um trabalho muito
pesado sob chuva ou sol e do chão duro e frio para a noite, nunca se vira
chicote ou corrente na Acácias.
Dizem
que de um córrego sem muita serventia, de uns engenhos velhos e ruídos e de
alguns pés de um pomar mal formado, foram surgindo celeiro novo, casa grande e
senzala bem construída pelos seus trabalhadores brancos e escravos. Já se viam
plantações em terrenos bem aproveitados e a Acácias ia tomando rumo de fazenda
imponente, de encher os olhos de esperança e o coração de orgulho de quem dali
se sustentava. Tudo obra de seu primeiro Coronel e dono, um tal Alcebíades
Alencar, que hoje, a exemplo de outras propriedades históricas, é figura
estrábica no quadro na parede da grande sala de visitas, com moldura de imbúia
bem tratada.
O
tempo passou, outros grandes coronéis passaram por lá, por herança, compra ou
batalha de sangue, e Acácias continua de pé. Produz pouco, não é nem sombra da
abundância de outrora. Também não recebe muitas visitas, como acontecia num
passado cada vez mais distante e saudoso, quando famílias eram fotografadas ou
pintadas em tela em frente ao casarão, no jardim de flores bem vivas ou nos
pomares ricos em variedades de frutas robustas.
Acácias
já foi terra que cheirava futuro, sem se esquecer do passado e com os pés no
melhor presente. Com gente amiga e confidente, sem rixas e duelos de sangue.
Hoje se desvirtuou em terra de ninguém e passado, presente e futuro se
emaranham em coisa só, pequena, esquecida, sugada pelos abutres que só querem a
carne fácil. Acácias definha, como é dito por alguns entendidos nos secos e
molhados da Vila Serena. Ainda é bela aos olhos de quem ali se criou e ganhou
cara e vergonha. Mas morre nas mãos de quem só quer dela o sulco de ouro e
peleja.
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