Zumbis
E
lá se vão os zumbis dirigindo seus carros novos. E suas consciências velhas e
obesas. E seus carrinhos cheios de compras e suas vidas cheias de regras.
E
lá se vão os mortos-vivos dirigindo suas realidades blindadas. E suas costas
cheias de tapinhas. E suas conveniências amordaçadas. E seus canais de TV. E
suas sobremesas calóricas. E suas vidas pré-fabricadas, arruinadas pela mudez
calculada.
E
lá se vão os servos do poder com suas opiniões plastificadas e vencidas.
Escravos
da ordem estabelecida. Em suas caminhadas sociais às suas academias inúteis. Em
seus exercícios enquadrantes de fim de tarde. Com suas nádegas flácidas, abdomens
enfárticos e cérebros doutrinados.
E
lá se vão os homens sem voz. Crucificados pela chefia dominante. Parceiros do
medo e da solidão. Com suas cervejas importadas e limitadas. Com suas amizades
movidas a interesse e tira-gosto industrializado. Com seus medos disfarçados de
cautela, sua intolerância disfarçada de moral, sua arrogância disfarçada de
intelecto e seus falsos pudores disfarçados de respeito.
E lá
se vão os zumbis, vagando sob marcas famosas. Transando de olho no relógio.
Comemorando ereções e sua heterossexualidade. Escondendo desejos profanos e
aliviando sua consciência mamute no dízimo de sexta-feira. Sujando as mãos de
um sacerdote político com seus lábios impuros.
E
lá se vão os zumbis, fugindo de suas covas. Em vão. Lutando desesperadamente
para chegar à frente. Que frente?
Lá
se vão os parceiros da ordem. Vendidos e mortos, assim como os zumbis cheios de
regras.
E
seus carrinhos cheios de compra. E medo.
Muito bom Luiz Ernesto! Você sabe das coisas!
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