Verdades sujas e pequenas certezas
Deixe de lado
suas pequenas certezas e seja uma mistura de Pollock e Picasso, jogando suas
grandes e sujas verdades numa tela dois por dois. Mande as tradições e a regras
hipócritas para um lugar bem distante, como o fez Vinicius numa noite
belo-horizontina regada ao bom que vem da Escócia.
Mande sua caretice
calculada te acompanhar ao banheiro, enquanto lava o rosto e divide o espelho
com o real de uma vida repleta de teatro amador. Jogue-a no vaso e tente
coragem para a descarga, junto com a goma que mascava para ser popular.
Perca a
vontade de ser engraçado e social. Rasgue o compromisso com a estética e
alimente seus pensamentos libidinosos com a sobrinha de dezoito anos. Pare de
fingir que ama e de encaixar todo mundo no tabuleiro de suas satisfações e
interesses. Pare de beber destilado de cara feia para perder barriga e ganhar
promoção no emprego e rasgue de sua agenda profana as descabidas metas
emergentes e babacas para comprar um carro novo e usar Ray-Ban.
Desintoxica-se
dos valores acumulativos e veja a vida do lado de fora da janela, passando como
um trem-bala cheio de arte e arrepio na espinha. E por falar em arrepio na
espinha, deixa o suor escorrer pela testa, convalesce e sente o cheiro da
catarse que subiu no quarto quente. Nada de levantar antes da hora. Goza a
vida. E por falar em gozar, goze uma pessoa por dia.
Não tente
entender semiótica. Não fique acordado para o Oscar. Não tente levar a vida de
Tom. Não tente entender poesia sistematicamente. Não tente ser sensível. Tente
limar seus preconceitos inúteis e não fume para aparecer em festinha fútil.
Não pare para
lembrar de tudo de idiota que fez, falou, escreveu e sentiu no passado. Tudo
valeu alguma coisa. Não tente fugir da infantilidade que lhe acomete e
lembre-se que só os índios do século XVI e os miseráveis da seca não são
burgueses.
Saia da
disputa pequena e veja o que há de bom nas entrelinhas, no cruzar de pernas de
Sharon Stone e nas tiras pornográficas de Zéfiro.
Se você achou
esse texto chato e confuso, ótimo. Algumas boas coisas da vida são fugir do
cartesiano, tomar um porre de vez em quando e não ser entendido. Portanto, não
o tente decifrar e torná-lo lógico ao seu ponto de vista, muito menos seguir
suas dicas. E antes de tudo, aja naturalmente.
Todo mundo
possui verdades sujas na gaveta e pequenas certezas.
* Texto publicado no livro "Crônicas de um repórter", lançado em 2010.
Sempre adorei este texto... ;)
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