sexta-feira, 12 de abril de 2013


                   Verdades sujas e pequenas certezas

 

Deixe de lado suas pequenas certezas e seja uma mistura de Pollock e Picasso, jogando suas grandes e sujas verdades numa tela dois por dois. Mande as tradições e a regras hipócritas para um lugar bem distante, como o fez Vinicius numa noite belo-horizontina regada ao bom que vem da Escócia.

Mande sua caretice calculada te acompanhar ao banheiro, enquanto lava o rosto e divide o espelho com o real de uma vida repleta de teatro amador. Jogue-a no vaso e tente coragem para a descarga, junto com a goma que mascava para ser popular.

Perca a vontade de ser engraçado e social. Rasgue o compromisso com a estética e alimente seus pensamentos libidinosos com a sobrinha de dezoito anos. Pare de fingir que ama e de encaixar todo mundo no tabuleiro de suas satisfações e interesses. Pare de beber destilado de cara feia para perder barriga e ganhar promoção no emprego e rasgue de sua agenda profana as descabidas metas emergentes e babacas para comprar um carro novo e usar Ray-Ban.

Desintoxica-se dos valores acumulativos e veja a vida do lado de fora da janela, passando como um trem-bala cheio de arte e arrepio na espinha. E por falar em arrepio na espinha, deixa o suor escorrer pela testa, convalesce e sente o cheiro da catarse que subiu no quarto quente. Nada de levantar antes da hora. Goza a vida. E por falar em gozar, goze uma pessoa por dia.

Não tente entender semiótica. Não fique acordado para o Oscar. Não tente levar a vida de Tom. Não tente entender poesia sistematicamente. Não tente ser sensível. Tente limar seus preconceitos inúteis e não fume para aparecer em festinha fútil.

Não pare para lembrar de tudo de idiota que fez, falou, escreveu e sentiu no passado. Tudo valeu alguma coisa. Não tente fugir da infantilidade que lhe acomete e lembre-se que só os índios do século XVI e os miseráveis da seca não são burgueses.

Saia da disputa pequena e veja o que há de bom nas entrelinhas, no cruzar de pernas de Sharon Stone e nas tiras pornográficas de Zéfiro.

Se você achou esse texto chato e confuso, ótimo. Algumas boas coisas da vida são fugir do cartesiano, tomar um porre de vez em quando e não ser entendido. Portanto, não o tente decifrar e torná-lo lógico ao seu ponto de vista, muito menos seguir suas dicas. E antes de tudo, aja naturalmente.

Todo mundo possui verdades sujas na gaveta e pequenas certezas.
 
 
 
* Texto publicado no livro "Crônicas de um repórter", lançado em 2010.

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