segunda-feira, 1 de abril de 2013


A ditadura sem farda

 

O mestre e Nobel Saramago já duvidava da democracia em alguns de seus escritos e entrevistas. Eu, que de mestria só carrego a do botequismo e estou anos luz do Nobel literário, só tenho a concordar.

E além de duvidar um pouco da dita democracia plena, chego até a recear se as temerosas censura e ditadura morreram mesmo, junto com a truculência dos antigos generais. É que começo a desconfiar (ou já desconfio há muito tempo, sei lá) se estamos mesmo diante de uma democracia ampla e irrestrita, dados os exemplos de uma mordaça velada e sob cortinas espessas que nos assola.

Veja nossa cidade, por exemplo. Assusta o grande número de boas mentes pensantes que se calam diante de tantos temas a debater e críticas negativas e positivas a se fazer. Excetuando alguns casos de coragem, independência e lucidez, que exemplifico usando os amigos Márcio Passos, Fernando Garcia, Marcelo Melo e Delci Couto, e, justiça seja feita, alguns outros indignados mais esporádicos, tem muita gente calada por medo e subserviência.

Dito isto, sinto uma imposição ao silêncio que beira o ridículo, ás vezes. Haja vista que, para mim, homem sem opinião é homem morto. O que parece vigorar é a ordem da preservação de benesses e posições na esfera do poder (?) e da vaga garantida na roda pseudo-burguesa da sociedade de festinhas que rendem fotos nas sociais. E a verdade é que tem muita gente que não diz e opina porque tem medo de represálias, sejam financeiras ou sociais. Isso é ou não ditadura? Ditadura sem farda, cassetetes e tortura física, mas que representa perigo. Até o bar que se freqüenta é alvo de vigília nos dias de hoje, muito diferente dos bons tempos de antigos governantes.

Não se trata de rancor, amargura ou ânsia em ser dono da verdade, da moral e dos bons costumes quando fora do sistema (como em alguns casos). É apenas o relato de um cidadão que duvida da democracia tão falada e propagada pelos populistas de plantão. E quando falo em opinião, quero dizer opinião sobre tudo e qualquer coisa, e não aquela restrita à administração pública. E repito: homem sem opinião é homem morto.

Neste ensaio, mestre Saramago, a cegueira vem acompanhada de uma temerosa, triste e melancólica mudez.

   

Um comentário:

  1. "Dito isto, sinto uma imposição ao silêncio que beira o ridículo, ás vezes. Haja vista que, para mim, homem sem opinião é homem morto."
    Acho que nem precisa ser comentado...fala por si só...

    Alessandra Guimarães

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