Para começar a
semana, um texto que estará em meu próximo livro. Melhor dizendo, no livro
do meu amigo Wandão Madruga.
Deus ou Sartre em nuvens vermelhas
Era só o
vizinho do 306 começar a xingar sua esposa e perguntar se Deus realmente
existia, e se existia porque o abandonara em companhia daquela mulher, que o do
401 jogava Demônios da Garoa bem alto na vitrola e se punha a fritar pururucas.
Parecia querer provar que Ele existia. Era sábado pela manhã.
A moça de
olheiras do 512 subia as escadas com raiva, pisando forte e reclamando de Deus
por ter quebrado o salto esquerdo e pela noite fraca. Perguntava, entre bufadas,
se Ele realmente existia. O do 401 parecia adivinhar. Ligava a TV num jogão do
maraca e abria logo duas. Era quinta à noite.
As contas do
casal do 703 pareciam não querer fechar e a mulher, serena e quase resignada,
entre lágrimas, pedia respostas a Deus, perguntando se Ele realmente existia e
se podia ouvi-la. Nosso amigo do 401, sentado no vaso sanitário, fazia palavras
cruzadas e lia Sartre. Era terça à tardinha.
A sofrida
vizinha do 822 chorava baixinho na sacada, cansada de mais uma noitada do
marido, perguntando às nuvens vermelhas se Deus era pra valer. Daí podia-se
sentir no ar, vindo do 401, o cheiro bom de um café saindo na hora e o
resmungar de uma vitrolinha tocando samba antigo. Era segunda pela manhã.
Não vou me
fazer de santo e dizer que nunca duvidei de sua existência, ainda mais eu, que
nos idos românticos e ásperos flertava com o partidão e só lia e ouvia Gabeira
e Caetano. Mas realmente há mais motivos para acreditar do que para duvidar.
Afinal, há muito fantástico em meio à dureza. Há muita beleza em meio ao caos.
É como sempre
dizia meu vizinho do 401: “tava tudo lindo, nós é que bagunçamos tudo”. Ele
estava certo, em sua mania incessante e boa de mostrar para todos que Deus
existia. E ele próprio provou isso, na tarde de sexta que saiu voando pela
janela do 401 em meio às nuvens vermelhas, espalhando Sartre, palavras cruzadas
e pururucas frescas a todos lá embaixo.
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